terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Liberdade e revolução

JOÃO PEREIRA COUTINHO


O fato de derrubarmos um governo opressivo não significa necessariamente que o próximo será melhor


NADA COMO uma boa revolução para deslumbrar os deslumbrados. Sempre foi assim.
Em 1789, a França abria um novo capítulo na história do mundo e um jovem parlamentar francês, Charles-Jean-François Depont (1767-1796), escrevia ao seu amigo Edmund Burke (1729-1797), o parlamentar irlandês que fora decisivo na causa independentista dos colonos americanos.
Na sua missiva, Depont fazia uma pergunta retórica: Burke aprovava a queda da Bastilha e a nova era de liberdade que prometia banhar a França e a Europa? A pergunta era retórica porque Depont estava convencido de que sim: quem, em juízo perfeito, se opõe à "liberdade"?
A resposta de Burke está contida em "Reflexões sobre a Revolução em França" (1790), obra singular na história do pensamento político. E pode ser resumida numa única palavra: depende.
A "liberdade", em abstrato, é um valor inestimável, responde Burke. Mas, na prática, será que somos capazes de festejar a "liberdade" de um louco que abandona a cela pronto para aterrorizar a vizinhança?
A metáfora de Burke é demolidora precisamente porque dinamita a "política de abstração" dos revolucionários franceses. Contra esses valores, Burke faz uma apologia do ceticismo e da prudência: o fato de derrubarmos um governo opressivo não significa necessariamente que o próximo será melhor.
Os jornalistas ocidentais que viajaram para o Cairo nunca leram Burke. E pouco sabem sobre a história das revoluções na era moderna: na França, Rússia e, claro, no Irã.
O caso iraniano é particularmente importante porque existem semelhanças de comportamento nos observadores ocidentais: em 1979, o Irã enterrava uma monarquia opressiva e corrupta e a "intelligentsia", com igual idealismo, olhava para o exilado Khomeini como "o Gandhi da Pérsia".
Escusado será dizer que Khomeini não foi o Gandhi da Pérsia, antes, o patrono de uma teocracia violenta que hoje treina e financia grupos terroristas como o Hamas, em Gaza, e o Hizbollah, no sul do Líbano.
Isso significa que o caminho do Egito será o do Irã três décadas atrás?
Ninguém sabe. Ou, como diria Burke, depende. E esse desconhecimento deveria refrear o entusiasmo infantil que a imprensa e a televisão despejam sobre nós.
Para começar, o Egito não parece ter condições materiais, culturais ou institucionais para garantir uma democracia liberal, respeitadora dos direitos individuais e, fato crucial, em que a religião não domine a vida política e imponha as suas regras.
Pelo contrário: o único partido da oposição a Mubarak organizado e disciplinado -a Irmandade Muçulmana- não garante esse quadro "democrático" e "liberal". Basta olhar para o Hamas em Gaza.
Por último, é importante recordar o básico: não existem democracias sem democratas. Anne Applebaum, uma especialista na história do comunismo, escrevia recentemente na "Spectator" que os povos que desejavam a libertação do regime comunista na Europa do Leste identificavam-se com o modelo democrático ocidental.
Ler os textos políticos de Václav Havel ou Lech Walesa é encontrar apologias expressas a uma liberdade tutelada pela lei em que a dignidade da pessoa humana e a iniciativa individual são respeitadas.
Não existe nenhum Václav Havel ou Lech Walesa no Egito de hoje. E é, no mínimo, aberrante que os jornalistas e comentadores ocidentais confundam os milhares de manifestantes da praça Tahir -muitos deles genuínos democratas- com os 80 milhões de egípcios que estão longe, muito longe, desse tipo de cosmopolitismo.
Segundo as pesquisas conhecidas, realizadas pelo conhecido Pew Research Center, em 2010, a maioria dos egípcios deseja uma maior participação do Islã na vida política, não olha para a democracia com grande entusiasmo e até apoia esmagadoramente os preceitos penais mais bárbaros da sharia.
O Egito livrou-se de um ditador. Mas é possível e provável que o futuro seja pior -para o Egito, o Oriente Médio e para nós, ocidentais.
É por isso que, nos delírios românticos dos últimos dias, a única coisa sensata foi dita pelo vice-presidente Omar Suleiman na sua comunicação ao país. Disse ele: "Espero que Deus nos ajude".
Nem mais. Só Deus, agora, pode ajudar o Egito.

Artigo publicado na Folha em 15/02/2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

No osso

LUIZ FELIPE PONDÉ


A vida é um drama sem solução. Atualmente, são os homens que esperam pelo príncipe encantando


ESTOU FELIZ. Dirão meus detratores que minto porque um niilista nunca está feliz. Mentira. A felicidade de um niilista apenas custa mais caro porque não é "made in China". Está mais para BMW do que para Chery.
Estou feliz porque vi um filme que me deu esperança no cinema dos próximos anos: "Inverno da Alma" , de Debra Granik.
Com os 80 anos do grande Clint Eastwood, temo por sua herança. Encontrei em Debra Granik uma esperança. Quem achar estranho que uma mulher seja a herdeira de um cineasta que fala de virilidade engana-se.
Num cenário como o atual no qual os homens, quase todos, falam fino e pedem permissão às mulheres para dizer o que pensam, só podíamos mesmo ter esperança que as cineastas mulheres se tornassem as possíveis herdeiras daquilo que os homens estão a perder: a coragem de dizer que a vida é um drama sem solução. Hoje, são os homens que esperam o príncipe encantando.
"Inverno da Alma" é filme de gente grande, coisa rara na medida em que a democracia de mercado avança (e tem que avançar mesmo, senão todo mundo morre de fome, como na África) e faz do cinema coisa para retardados.
A luta no capitalismo avançado e na democracia de massa é pela defesa da inteligência, que sofre o risco constante de atolar num pântano de bobagens para fazer a classe média se sentir segura.
Nada contra filmes divertidos, de ação, de terror e coisas assim. Mas quando o cinema resolve salvar o mundo, mudar o mundo, mudar as pessoas, meu Deus, que tédio.
Parafraseando o grande Oscar Wilde (1854-1900), que disse algo como "toda poesia sincera é ruim", todo filme no qual o diretor quer salvar o mundo é ruim. Mas como a audiência costuma ter o mesmo nível mental do diretor, quase ninguém percebe que está diante de coisa do jardim da infância.
Em 2004, Debra Granik já fizera "Down to the Bone", filme sobre uma mulher que luta contra as drogas em meio à criação de seus filhos. Agora ela volta "ao osso" para falar de uma menina de 17 anos que luta para achar seu pai, que meteu sua família numa fria das sérias.
Sua mãe, imprestável, é uma deprimida apática. Em meio à pobreza, a garota cria seus dois irmãos mais novos e cuida de tudo mais. Sozinha diante da vida, sem frescuras, sem "mapa moral", sem a ladainha política de vítima social.
O filme se passa num desses Estados atrasados do sul americano, pobre e rural. Aquela América que o amador Obama não entende. Esperemos que passe logo a onda Obama de governar para a torcida, a fim de ganhar aplausos dos estudantes e das feministas.
Uma das coisas que pode tornar o filme "difícil" é exatamente o fato de ele não oferecer o "mapa moral" que todo mundo gosta de receber quando vai ao cinema ou quando pensa sobre a vida e os costumes.
O filme não oferece "mapa moral" porque todos os personagens estão atolados na vida, que é essencialmente um fenômeno amoral, sem os tais "valores" de que todo mentiroso gosta de falar.
Apesar de que ficou na moda todo mundo desfilar "princípios éticos" por aí, a semelhança da hipocrisia cristã do passado, no silêncio de nossas almas nós sabemos que fazemos tudo que for necessário para sobreviver. E quem é exceção, não faz marketing do bem, apenas morre cedo.
Sim, uma dose de "ilusão moral" constitui a vida em sociedade. A própria noção de amor familiar como fato óbvio é uma dessas ilusões (as famílias, às vezes, são máquinas de moer gente e nem toda mãe ama seus filhos, às vezes os odeia e às vezes, com razão).
A metáfora do "osso" aqui é essencial. Em inglês, chegar ao osso é chegar ao fundo das coisas, na sua estrutura mais elementar. É chegar ali onde a ilusão não habita.
A cena na qual a protagonista com a ajuda das mulheres que a tinham espancado, "resolve o enigma" é uma ode à genuína piedade.
Não consigo pensar em maior canto à sofrida dignidade humana (esta mesma que os marketeiros do bem maculam com seu papo-furado) do que a heroína Ree, ao final, tranquilizando seus irmãos pequenos, dizendo que não conseguiria viver "sem o peso deles nas costas". Eis um filme para se ver de joelhos.

Artigo publicado na Folha em 14/02/2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Jornalismo Delinquente

Demétrio Magnoli

As pessoas, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz (”DEM corresponsabiliza negros pela escravidão”, Cotidiano, 4/3).

A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.

O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram “africanos” por “negros”, convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.

Não: ninguém disse que a “raça negra” carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à “raça branca” a responsabilidade pela escravidão.

Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.

Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.

O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.

O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres (”África não organizou tráfico, diz historiador”), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que “toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais”.

Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.

Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: “Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor”. Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: “Negros corresponsabilizam negros pela escravidão”.
O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.

No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º. Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”.

Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. “Não discutimos a escravidão”, afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma “amnésia geral sobre a escravidão”.

Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais.

Artigo publicado na Folha em 09/03/2010

Quibes, queijos e vinhos

LUIZ FELIPE PONDÉ


Quem está na rua no Egito quer emprego; se fala em "liberdade", é porque aprendeu com o Ocidente


OS ÁRABES foram às ruas. Os paquistaneses (muçulmanos, mas não árabes) vivem nas ruas pedindo a cabeça de algum inimigo do Islã. Pensar que estamos diante da "aurora" de um novo mundo árabe democrático é uma piada.
Imagino como alguns "sacerdotes da religião do povo" (populismo para intelectuais de esquerda?) devem ficar emocionados, lembrando (fantasiando?) os grandes dias do Maio de 68 na França.
Se lermos as colunas de Nelson Rodrigues (editora Agir) da época, encontraremos questões como: afinal, o que querem esses estudantes parisienses se não cortaram nenhuma cabeça? Que revolução é essa que acabou em croissant?
De uma hora para outra, a moçada francesa voltou para casa para tomar vinho e comer "un petit fromage". Centenas de teses pelo mundo tentam até hoje explicar a razão de a "revolução do desejo" de Maio de 68 ter acabado de repente, sem nenhuma razão.
Diferentemente dos jovens americanos, que tinham um motivo concreto para protestar (a horrível Guerra do Vietnã), os meninos franceses estavam cheios de tédio, naquela vidinha chata de gente rica, e resolveram brincar de "comuna de Paris".
No fundo, queriam "o direito" de transar com as colegas nos dormitórios da universidade, alguns meninos queriam "o direito" de transar com outros meninos (sob a bênção filosófica do mestre Foucault, que, aliás, no começo da Revolução Islâmica do Irã, tinha frisson por ela), e alguns, como sempre, não queriam mesmo é ir para a aula e virar gente grande.
Mas os "sacerdotes do povo" fizeram seu trabalho e transformaram aquela festa em grande fenômeno histórico.
A verdade é que não se sabe no que vai dar essa "revolução do quibe" no mundo árabe. Pessoalmente, espero que consigam viver melhor e se livrem dos "partidos de deus".
Mas o que é viver melhor? Para mim, que não sou relativista e acho a democracia liberal ocidental o melhor sistema político conhecido e gente que amarra toalha na cabeça para gritar "morte aos infiéis!" gente atrasada, viver melhor é poder ganhar dinheiro e pagar suas contas, consumir coisas que queremos consumir, transar com quem você quiser, não ter que aturar maridos espancadores, não ser obrigado a sustentar mulheres de que você não gosta mais, não ser obrigado a rezar se você não quiser, poder rezar se você quiser para o deus que você quiser, não ter que achar seu governante "o salvador do povo". Enfim, coisas básicas, não?
Mas o fundamentalismo islâmico (que não é a mesma coisa que islamismo) não pensa assim.
Se, por um lado, não se pode afirmar que o Egito vá virar o Irã (que alguns ainda acham ótimo porque "enfrenta o imperialismo americano"... risadas...), por outro, negar o risco do fundamentalismo islâmico na região em questão é uma piada. Pura má fé teórica.
Risco aqui não significa apenas tomar o poder, significa minar a sociedade, enterrando as pessoas nesse "pântano de deus" onde fundamentalistas crescem como praga na lama.
Essas pessoas que estão nas ruas querem emprego. Se eles falam em "liberdade", fazem-no porque aprenderam com o Ocidente capitalista malvado. Não estão movidos por ideologias de Maio de 68. Espera aí... qual era mesmo a ideologia? Reclamar da TV, do cinema, de ter que arrumar o quarto, de ter que fazer prova na faculdade?
Que tal o Líbano, que virou refém do Hizbollah (o partido de deus), esse grupo muito pacifista e democrático? Ou a irmandade islâmica do Egito, que está "gozando" com tudo isso? E os democráticos do Hamas? Que tal mandar um desses populistas de esquerda passar uns dias com eles para discutir "liberdades individuais"? E se o voto direto por lá eleger outro Hamas?
Muitas análises são feitas a partir do que em filosofia se chama "wishful thinking" (pensamento contaminado por "desejos escondidos"). Muita gente projeta sobre esses fenômenos seus pequenos sonhos de grandeza teórica.
Esses países não têm a divisão moderna entre religião e Estado. Negociar com eles é negociar com o Islã, não nos enganemos. O necessário é falar com o Islã e seus líderes, a fim de "isolar" a praga do fundamentalismo.

Publicado na Folha em 07/02/2011

Os herdeiros de Sayyid Qutb

JOÃO PEREIRA COUTINHO


O teórico egípcio mostra que a Irmandade Muçulmana está longe de ser uma força "moderada"


OS ESTADOS UNIDOS tiveram dois visitantes ilustres que voltaram para contar. O primeiro foi Alexis de Tocqueville (1805-1859). O seu "A Democracia na América" é, ainda hoje, o livro definitivo sobre a República, a "era da igualdade" e os seus intrínsecos perigos.
Mas existe um segundo visitante, nascido cem anos depois de Tocqueville, que não pode ser esquecido. Seu nome é Sayyid Qutb (1906-1966). Seu livro, com o título "A América que Eu Vi", é um belo complemento à obra de Tocqueville. Com uma diferença: o francês expressa a sua admiração pela América; o egípcio deixou-nos um documento pleno de ódio e horror.
Quem é Sayyid Qutb? Simplificando: é um dos teóricos fundamentais do islamismo sunita e o ideólogo "par excellence" da Irmandade Muçulmana, o grupo fundado por Hassan Al-Banna no Egito, em 1929.
Mas enquanto Al-Banna foi uma figura essencialmente "religiosa", ainda que advogando a jihad como forma de reverter a contaminação ocidental no Oriente Médio, Sayyid Qutb conferiu à guerra santa uma urgência empírica que arrepia qualquer cristão.
Ou, melhor dizendo, qualquer cristã: as suas descrições das mulheres americanas, que ele via dançando e rindo com uma liberdade e sensualidade ofensivas, convenceram-no da corrupção ocidental e da necessidade de combatê-la pelo terrorismo e pelo sangue.
Lembrar Sayyid Qutb é importante no momento presente. Porque o momento presente persiste na ilusão de que a Irmandade Muçulmana é uma força "moderada" para o futuro do Egito, na fase que se abre pós-Mubarak.
A ilusão não resiste à realidade.
Não resiste aos textos teóricos da Irmandade Muçulmana, que repudiam a democracia (uma importação sacrílega) e defendem a submissão ao Islã como caminho único para a complexidade e fragmentação das sociedades modernas.
Mas também não resiste às suas práticas: um dos excelsos subprodutos da Irmandade Muçulmana encontra-se hoje a governar Gaza. Falo do Hamas, é claro, um grupo terrorista que se recusa a aceitar a "entidade sionista" e que justifica a sua luta contra Israel com os "Protocolos dos Sábios do Sião", o documento forjado pelas autoridades czaristas no século 19 para instigar os "pogroms" do Império Russo.
Isso significa que Hosni Mubarak é a resposta para o impasse egípcio?
Obviamente que não. Mubarak foi uma resposta em 1981, após o assassinato de Anwar Sadat pelo radicalismo islâmico, ao impedir a desagregação do país; ao controlar o fanatismo da Irmandade; e ao honrar os compromissos de paz assumidos com Israel em Camp David.
Acontece que Mubarak deixou de ser uma resposta há muito tempo. E seria importante que o Ocidente, e em especial os Estados Unidos, aprendesse uma lição fundamental com a revolta corrente: não basta que os nossos aliados sejam inimigos dos nossos inimigos. É importante, também, que eles sejam amigos dos nossos valores.
E se esses valores não existem, devem ser criadas as condições institucionais e materiais para que eles possam florescer. Só existem democracias dignas desse nome quando o povo escolhe sem fome, sem medo e com a dignidade intacta.
Quando essas condições estão ausentes, a democracia transforma-se apenas num mecanismo formal que normalmente premia quem a deseja liquidar. Isso foi visível em Gaza, nas eleições legislativas de 2006; já tinha sido visível na Alemanha de Weimar. Com os resultados conhecidos.
É por isso que concordo com Charles Krauthammer, colunista do "Washington Post" e uma das vozes mais racionais da imprensa atual: o melhor que poderia acontecer ao Egito era experimentar um período de transição, tutelado pelas suas Forças Armadas, que permitisse responder às necessidades básicas de uma população enraivecida e faminta; e, por outro lado, que levasse à formação de partidos seculares e democráticos que se assumissem como alternativa à Irmandade Muçulmana.
O pior que poderia acontecer era montar as urnas da noite para o dia, estendendo um tapete vermelho para que os herdeiros de Sayyid Qutb pudessem aplicar o projeto totalitário do patrono.

Publicado na Folha em 08/02/2011