terça-feira, 12 de abril de 2011

Homens inteiros

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Em "Homens e Deuses", filme de Xavier Beauvois, aprendemos que a fé é uma forma de coragem


POIS É: a Europa pode estar em crise, economicamente falando, mas por vezes ainda existem uns sopros de vitalidade. Artística, entenda-se, vitalidade artística. Valha-nos ao menos isso.
O cinema francês é um caso e os brasileiros podem comprovar o que digo. Basta que assistam ao filme de Xavier Beauvois, "Homens e Deuses", que finalmente desembarcou nas salas do Brasil [estreia nesta sexta]. A Páscoa sempre foi um tempo de milagres.
Comentário breve: é a melhor colheita cinematográfica de 2011 até o momento. Desconfio que será a melhor nos meses que faltam.
Comentário longo: é muito mais que um exercício piedoso e ecumênico sobre a tolerância religiosa e interreligiosa, como dizem os críticos.
É um filme sobre a fé, esse tema arcano e intangível que povoa o melhor cinema dos "mestres do norte", como Carl Dreyer (1889-1968) ou Ingmar Bergman (1918-2007).
E ainda oferece, como complemento, a mais bela "última ceia" que o cinema recente produziu. Mas vamos por partes.
Premiado no Festival de Cannes, "Homens e Deuses" é a história, aparentemente simples, da vida simples de oito monges cistercienses que vivem, rezam e trabalham em país do norte de África.
Vivem em paz entre si e, mais importante, com a população muçulmana local, que acorre ao mosteiro em busca de consolo físico e até metafísico -cuidados de saúde, conselhos sentimentais, comentários religiosos. O fato de uns lerem a Bíblia e outros o Corão não impede uma irmandade sacramental perante as perplexidades da existência.
Mas essa concórdia será abalada por aqueles que transformam a religião em arma de guerra. O fundamentalismo islâmico começa a rondar a aldeia. Os terroristas também. Existem notícias de massacres contra estrangeiros, mulheres, imãs.
A população é tomada pelo medo. Os monges são avisados pelas autoridades nacionais: para que partam de imediato, antes que a tragédia se abata sobre o mosteiro. Avisos sábios.
Mas como partir assim, de uma hora para a outra, abandonando a aldeia ao seu destino? E partir para onde, se a existência trapista implicou o abandono e a renúncia de uma vida anterior?
São dilemas terríveis e o melhor do filme está nessas agônicas indecisões. E no calvário espiritual que elas implicam: o confronto humano, demasiado humano, com o medo, com a covardia e até com a descrença. "Morrer pela fé não deveria impedir-me de dormir", diz um dos monges insones ao irmão superior, com lágrimas de vergonha. Mas será possível pedir tanto a tão poucos?
A resposta vem no Livro: esse tanto já foi pedido a um só. E não é por acaso que o primeiro confronto com os terroristas se dá na noite de Natal. A noite em que os monges se preparam para celebrar um nascimento humilde que libertou os homens da morte. E do medo da morte.
Libertação do medo da morte: haverá forma mais eloquente de traduzir a fé dos que acreditam?
O irmão superior, em comunicação final aos demais, responde e clarifica: depois da primeira visita dos terroristas, e antes que a última se aproxime, ele entendeu que só havia uma coisa a fazer. Continuar.
Dia após dia, com tarefas de todos os dias: cuidar dos doentes; cuidar dos irmãos; cuidar do mosteiro.
E abandonar todo o medo da morte porque só nesse abandono é possível nascer e renascer outra vez. Como homens inteiros, para quem a vida não é uma desculpa ou um castigo; mas um compromisso até o fim.
Não conto esse fim, filmado sob neve e em silêncio. Prefiro regressar ao mosteiro e vislumbrar, naquelas oito vidas, a metáfora essencial sobre as nossas próprias vidas.
Como os monges, caminhamos sobre gelo fino, que um dia se abrirá para nós também. Mas poucos se lembram dessa verdade que nulifica toda vaidade humana.
E, quando a lembramos, é para fugir desesperadamente dela com simulacros de esquecimento -a tentação da covardia que visitou os irmãos e por eles foi derrotada.
No primoroso filme de Xavier Beauvois, aprendemos que a fé é sobretudo uma forma de coragem: a coragem dos que olham a morte de frente e, apesar disso, ou talvez por causa disso, se recusam ir a enterrar antes do tempo.

Pulicado na Folha em 12/04/2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Nós, os pterodátilos

LUIZ FELIPE PONDÉ

Como deixar uma "prova fóssil" do fracasso afetivo de nossa espécie? Isso é completamente impossível


UM DIA a espécie humana desaparecerá pelo menos tal como a conhecemos. Não, não me converti ao bloco dos maníacos de 2012 ou ao fanatismo verde.
Falo de "ciência". Falo da peça "Pterodátilos", em cartaz no Teatro Faap, com Marco Nanini e maravilhoso elenco. Trata-se de um texto que finca suas bases numa interpretação poética trágica da teoria evolucionista.
Você sabe, caro leitor, que o mundo está dividido entre aqueles ingênuos que acham que mãe é sinônimo de amor e aqueles realistas que sabem que existem mães que não deveriam ser mães. Sim, existem mães predadoras de filhos.
Não existe tal coisa como instinto amoroso materno universal. Algumas mães vivem a maternidade como destruição sistemática de seus filhos. E quase sempre essa anulação afetiva dos filhos vem travestida de "amor".
Mas qual seria a relação entre isso e o darwinismo? Calma, tome mais um gole de café. Coma um pãozinho quentinho. Mas não se esqueça da silhueta e que se você engordar uns quilinhos, você vai perder valor no mercado dos afetos...
O antropólogo americano Ernest Becker, escrevendo uma obra na fronteira entre darwinismo e psicanálise nos anos 60 e 70, já havia apontado para um fato importante com relação à espécie humana: somos a única espécie que além de enfrentar um meio ambiente externo, tem que enfrentar um meio ambiente interno.
Mente, psiquismo, cérebro, alma, tanto faz como você chame, vivemos em dois mundos, um material, físico, externo, e um outro, composto de experiências internas tais como afeto, ideias, reflexões, medos, esperanças. Este é o meio ambiente interno.
Ao longo de nossa trajetória evolucionária de milhares e milhares de anos (é sempre bom lembrar esse pequeno detalhe para essa moçada que acha que a vida começou com a Revolução Francesa ou com Marx e Foucault ou com o "Capital"), nós nos adaptamos a um equilibro sofisticado de pesos e contrapesos afetivos, dependentes de como somos tratados e de como tratamos os outros além, claro, da constante agressão do meio ambiente, este mesmo que os fanáticos verdes acham que é feito de substância angelical.
Um modo comum de se referir a este mundo interno é "emotional bonds" (laços emocionais ou afetivos). Claro que uma relação sofisticada e sutil entre pensamentos e afetos também faz parte deste "mundo". Daí decorre o modo de como reagimos ao meio ambiente social e psicológico.
Dizem os darwinistas, mesmo a vida moral (isso que hoje está na moda chamar de "valores", apesar de que todo mundo mente sobre esses tais "valores") é fruto desses "emotional bonds".
Penso como o dramaturgo romeno Ionesco: é a condição humana que determina a condição social e não o contrário. Acho que a teoria evolucionista captura melhor essa condição humana do que o blábláblá das ciências sociais.
Voltemos à peça. Pterodátilo era um tipo de pássaro pré-histórico. Um tipo de dinossauro com asas. Durou muito tempo. De repente sumiu. Por quê? Ninguém sabe.
Na peça a analogia entre a família protagonista e essas aves extintas é a chave da interpretação poética trágica da evolução humana. Um dia também podemos sumir sem "causas aparentes". Como deixar uma "prova fóssil" do fracasso afetivo da espécie? O fracasso afetivo é invisível, mas palpável como a dor.
A mãe da família (interpretada maravilhosamente por Mariana Lima) é a chave do processo de "extinção" da família-humanidade. Uma mãe predadora dos filhos. Tema datado? Nem tanto. O horror é sempre um clássico, mesmo para os cínicos.
Egoísta, desequilibrada, fútil (esquece o nome da filha o tempo todo), pedófila, infiel, incestuosa com o filho gay (aliás, a temática homossexual surge no enredo de modo dramático, estranho para uma época como a nossa na qual está "proibido pensar" no homossexualismo para além de "é lindo"), promíscua, enfim, um fracasso afetivo que reproduz seu fracasso em "escala evolucionária".
O destino de nossa espécie pode não ser apenas função da devastação de florestas, mas também da devastação do afeto que fica invisível no cotidiano.

Publicado na Folha em 11/04/2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O parque temático do bem

LUIZ FELIPE PONDÉ


O marketing é a ciência definitiva do inicio deste século, não a sociologia nem tampouco a política


POR QUE existem guerras? Porque gostamos de matar. Resposta pouco simpática, mas definitiva.
Penso como o crítico literário norte-americano Edmund Wilson (século 20): as guerras não são causadas primariamente por razões políticas ou econômicas, estas são apenas o que na filosofia chamamos de "causas ocasionais" (isto é, a oportunidade que aparece para realizarmos as verdadeiras causas primárias de nossas atitudes).
A verdadeira causa primária é biológica: gostamos de matar e pronto.
O governo britânico lançou na mídia imagens de seus aviões bombardeando tanques das forças pró-Gaddafi na Líbia. Imagens como essas dão crédito para o marketing moral e político do Reino Unido: "Olhem como não matamos civis, somos legais".
Perguntado certa feita sobre a morte de civis em combate, o primeiro-ministro de Israel Bibi Netanyahu teria dito "Alguém perguntou aos britânicos quantos civis alemães mataram em seus bombardeios?".
Todo mundo sabe como guerra é, mas hoje em dia querem dizer que guerra pode ser combatida puxando o cabelo do inimigo. O mundo virou um "parque temático do bem".
O marketing é a ciência definitiva do inicio deste século. Se quisermos entender a política e a moral, devemos voltar nossos olhos para o marketing e não mais para a sociologia ou para a ciência política. Estas são ciências caducas para as sociedades contemporâneas.
Desde o século 18 a filosofia política, em grande parte, virou conversa de "teenager". Coisas como "o homem é bom e a sociedade o perverte" é conversa para boi dormir.
Sabe-se desde as cavernas que a vida moral comporta um tanto de hipocrisia, sem a qual seríamos obscenamente amorais. Mas o problema é que, desde Rousseau, a hipocrisia contaminou o mundo da filosofia política. Por quê? Porque ele criou a política para o mundo como parque temático do bem.
É ridículo ver como a classe intelectual, artística, e muitos profissionais da mídia se acham uma reserva moral da sociedade. Hábito nefasto porque corrói o pensamento público desde a raiz. Faz de cada um de nós um marqueteiro de nosso próprio pensamento.
Intelectuais, artistas e jornalistas aderiram a todas as diferentes formas de totalitarismos desde o século 18. Mas não todos, graças a Deus e a coragem de alguns de resistir às glórias de fazer parte da torcida e do rebanho.
Mas a mentira social não é privilégio da elite intelectual de um país. Se René Descartes, filósofo francês do século 17, disse que a razão foi dada a todos os homens em "quantidades iguais", deveríamos acrescentar, mais ao modo de outro filósofo francês do século 17, Blaise Pascal, que o pecado, sim, foi dado a todos em "quantidades iguais".
Aliás, suspeito que a razão não foi dada em "quantidades iguais" a todos os homens, mas, sim, o pecado. Nada disso significa que devemos bater palmas para as guerras. Significa que devemos resistir à praga do modo "teenager" de pensar e dizer a verdade: gostamos de matar.
O argumento de Rousseau segundo o qual temos um "sentido empático" para o sofrimento alheio (isto é, sentimos junto com o outro seu sofrimento e daí agimos em defesa dele) é uma piada de mau gosto. Só reagimos à violência quando ela põe a nós mesmos (ou nossos interesses) em risco.
Sabe-se muito bem que filhos e cônjuges de pessoas que ajudaram vítimas do nazismo (ou qualquer outro sistema de violência) detestavam a atitude moral do "idiota da família" que colocava o cotidiano da família em risco para ajudar estranhos. Sempre que situações como essas se repetirem, a maioria esmagadora das pessoas fará o mesmo. E odiará quem não fizer.
Muita gente sai gritando quando isto é dito, movida apenas, em segredo, pela sagrada mentira social que sustenta a imagem pública de nós mesmos.
Genocídio é um horror, mas é a constante da humanidade e não a exceção. Preste atenção: quantos períodos históricos existiram sem algum genocídio? Nenhum ou talvez alguns minutos.
Cada um de nós está sentado sobre ossos. Ganhamos tecnologia, dinheiro, ciência e espaço com guerras. O gosto de sangue é o motor da história.

Publicado na Folha em 04/04/2011